quarta-feira, 19 de outubro de 2011

*

Querida Alice,

As pessoas dizem que mudar é fácil, que quando a gente muda, o mundo muda com a gente. Acho que o mais dolorido de tudo é quando nós descobrimos que quando a gente muda, o mundo faz de tudo pra nos trazer de volta onde estávamos. Eu queria era tatuar no corpo todo que eu não preciso mais disso. Eu não preciso mais dela, dessa agitação, da adrenalina que ela produz em mim. Eu queria era gritar com todas as forças que tenho que sou um homem livre e independente, mas estou tão cansado que acho que se gritasse tão alto nem as enfermeiras escutariam.
Depois de 7 meses e 5 dias sem ela, a insônia me mata e quando por fim consigo dormir, acordo em desespero. Em pensar em todas as loucuras, sempre más, nunca boas, que eu fiz por ela, em todas as pessoas que eu magoei, será que valeu a pena?
Falar dela como se fosse uma pessoa talvez seja um problema também, mas para mim, é como se fosse. Drogas se tornaram gente, e gente se tornou coisa. Não me julgue louco, porém talvez eu seja, nem viciado, porém talvez eu também seja. Gosto de me julgar um “ex” tudo: ex-viciado, ex-marido, ex-desajuizado... Ex-conhecido de mim mesmo e, pior ainda, ex-conhecido seu. Ainda estou pra me descobrir novamente, e espero que dessa vez faça uma surpresa boa pra mim mesmo e pra todos os poucos que, embora eu tenha tratado como coisas, ainda me querem bem.
Mudar não é fácil, eu e você sabemos disso, mas se tem algo que eu soube na vida desde o minuto em que você nasceu e eu prometi que iria cuidar de você enquanto minha saúde permitisse, é de que tudo por você valeria à pena. E eu tive mais certeza ainda quando você apertou meu dedo com aquela sua mãozinha minúscula. Quando você esteve com dor, guardei a minha no bolso, defenestrei-a, e fui cuidar da sua. Desculpa por ter ficado tão ausente nos últimos tempos e por não ter cuidado de você. De verdade.
Se serve de consolo, aqui na reabilitação tem caras muito piores do que eu. É, eu sei que não serve. Mas meu ego sobe um tantinho, tentar ajudar os outros me lembra dessa de guardar a dor no bolso, faz com que eu me sinta um pouquinho mais humano do que eu era antigamente.
Respondendo a pergunta que eu fiz um pouquinho antes, não valeu a pena. Desculpe-me por ter percebido isso depois de tanto tempo. Mas toda a espontaneidade e a confiança que seguiam os baques eram tão falsas quanto uma nota de três reais, e eu via tudo isso nas horas seguintes, quando a depressão começava. Estou fazendo o possível pra corresponder a tudo aquilo que você me escreveu naquele segundo domingo de agosto do ano passado.

Te vejo em breve, eu prometo.


*Texto um tanto diferente do usual, foi uma redação que tive que fazer p/ a escola sobre drogas e acabei gostando do resultado.